
Em tempos de aposentadoria das cartas, fartamente substituídas pelos emails ou pelos scraps, o amor parece ter seguido o mesmo destino. FIco imaginando: onde foram parar as cartas de amor? Ou melhor, onde foi parar o amor?
Quando comecei a refletir sobre isso, me veio a mente quando Chico Buarque retrata em "Futuros Amantes" a surpresa com que pesquisadores do futuro lerão suas cartas de amor não-correspondido: "Sábios em vão tentarão decifrar o eco de antigas palavras", canta nosso compositor-mor.
Do jeito que a mentalidade reinante nos dias de hoje caminha, fico imaginando esse mundo futuro cantado por Chico. As cartas de amor dos últimos românticos dessa geração, como eu, deverão ser objeto de surpreso estudo acerca desses "arcaicos e excêntricos" humanos.
"O que os faria crer que a coisa mais bela que podiam desejar na vida seria amar, se doar sem interesses e querer envelhecer ao lado de um só alguém, se eles poderiam ter quantas pessoas quisessem ao mesmo tempo e trocar todo mês aquela velha "mercadoria" por uma mais nova?", indagariam esses confusos futuros humanos(?).
Pois é, vivemos um fenômeno que eu chamaria de "objetivação". Note que essas pessoas aversas ao amor, costumeiramente tratam suas relações de forma bastante "objetiva": estou com vontade de beijar esse hoje, beijo, amanhã não quero mais, recorro a outro, e assim por diante. A palavra é auto-explicativa: pessoa "objetiva" nos relacionamentos, busca "objetos" para se relacionar; eis o fenômeno da "objetivação". Engraçado os humanistas defenderem que o ser humano está evoluindo. Mas como? Não obstante tudo que vem fazendo com o mundo e os recursos naturais, em se tratando de relacionamentos, estão se tornando em verdadeiros animais.
Os "subjetivos" que buscam "sujeitos" para viverem "felizes para sempre", amando aquela individualidade com uma carga de alegrias e frustrações marcas de um tocante e sentimental subjetivismo, estão em extinção.
Sei que meu grito é rouco e minha frustração é, muitas vezes, inútil, mas enquanto meu coração bater vou lutar para que o homem/mulher-humanos sejam resgatados e o casamento volte a ser a instituição mais forte da sociedade; igualmente vou brigar para extinguir da face da Terra o homem/mulher-animal e seu inconsciente hedonismo. Com quem posso contar? Escreva você também uma carta de amor e, se não conseguir mudar mentalidades, pelo menos, ficará para história e será objeto de estudo dos futuros humanos(?)!